[Report] Bretanha - Maio de 2018

Tópico em 'Reports de França' iniciado por LigiaDC a 4 Jun 2018.

  1. LigiaDC

    LigiaDC Moderador Membro do Staff

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    Este é o meu report sobre uma escapadinha de 24 a 28 de maio à Bretanha.
    A Bretanha estava, há muito, nos meus planos, não só pelo incontornável Mont Saint Michel mas por toda a região em si.
    É uma região de França com uma personalidade muito própria, onde a palavra "resistência" adquire todo um novo sentido. Os bretões são orgulhosos da sua terra e das suas gentes. É por essa razão que no seu auge, por volta do séc. IX, o vasto Império Carolíngio excluía a Bretanha, que resistiu até ao séc. XVI à capitulação perante a coroa francesa.
    Muito há para ver na Bretanha, salpicada de vilas e aldeias, cheias de histórias. No entanto, com este timing, tivemos de escolher.
    Comprámos a viagem de avião Porto-Nantes à Easyjet, por 60 Euros, ida e volta por pessoa.
    Como Nantes fica mais distante dos pontos que queríamos visitar, decidimos ficar alojados em Rennes por 3 noites. Marcámos o Ibis em Rennes por 100 Euros por noite, por quarto para três adultos com pequeno-almoço incluído.
    Para as deslocações, alugámos um Ford Fiesta na Sixt, no aeroporto de Nantes, por 98 Euros por cinco dias.

    O voo partiu com meia hora de atraso, quer cá, quer lá. A Easyjet não anda grande coisa com a pontualidade. Mas as viagens decorreram sem problemas, bem como o aluguer do automóvel. As rent-a-cars são logo à saída do aeroporto e o carro estava logo atrás.

    De Nantes a Rennes são 181 km, sempre por auto-estrada.
    Quando chegámos a Rennes, fomos diretos para o hotel, passear um pouco e jantar.
    Confesso que não gostei particularmente da cidade de Rennes. Tem um centro pequenino, com algumas ruas só para peões, muita gente nova na rua mas... o problema é que, quando se sai dali, "cai-se" imediatamente em bairros escuros, sombrios, pouco povoados e algo sinistros. Andar a pé nesses bairros, com máquinas fotográficas não é particularmente confortável. Uma das noites, estávamos a chegar ao hotel e saiu, do nada, um asiático, de camisa aberta e todo arranhado a perguntar onde era a polícia!
    Aqui ficam algumas fotos de Rennes
    Câmara Municipal
    Parlamento da Bretanha
    Catedral
    Rio e a zona ribeirinha
    Mais algumas
    No dia seguinte, metemo-nos no carro e fomos ao Mont Saint-Michel. De Rennes ao Mont são 88 km.
    O Mont Saint-Michel e o seu município nem sempre tiveram esse nome. Originalmente chamado Mont Tombé e, seguidamente, Mont-Saint-Michel au péril de la mer (Monte Saint-Michel em perigo do mar), a ilhota atravessou várias épocas até se tornar o terceiro local mais visitado na França.
    A lenda das visões do Bispo de Avranches
    Saint-Aubert, bispo de Avranches, fundou o Monte Saint-Michel no ano 708. Na terceira vez que o arcanjo São Miguel apareceu nos seus sonhos, o bispo decidiu construir um santuário em homenagem ao personagem divino. O presságio de um touro amarrado sobre o Monte Tombé anunciou o local do santuário, hoje o Mont Saint-Michel. Ao longo dos anos, a abadia do Mont Saint-Michel tornou-se um local importante de oração e de peregrinação. Os monges beneditinos instalados aí desde 966 traduziam textos de Aristóteles e as relíquias atraíam os fiéis em busca de espiritualidade. Mas a sua localização estratégica também acabou por o transformar num algo. As ampliações da abadia foram acompanhadas por outros projetos de construção para reforçar a defesa da ilhota. Durante uma visita, podemos encontrar, por exemplo, vestígios da Guerra dos 100 anos. Em 1204, o local foi mesmo destruído por furiosos cavaleiros bretões, liderados por Guy de Thouars. Sob o reinado de Luís XI, a ilhota do Monte Saint-Michel tornou-se uma espécie de prisão de Alcatraz em França. Transformado em prisão, o monte recebeu prisioneiros até 1860. A Revolução Francesa prendeu aí os resistentes, instalando-os na abadia-prisão. Quando a prisão foi fechada no século seguinte, após um decreto imperial, os 650 prisioneiros de Estado foram transferidos para o continente. Victor Hugo, apaixonado pelo local, fez parte dos personagens importantes que impulsionaram seu encerramento. O culto foi restaurado em 1922, mas as peregrinações só foram reiniciadas em 1966 por ocasião da celebração do milénio da abadia. Os monges beneditinos reocuparam as salas de oração, mas aos poucos foram abandonando a abadia. Em 2001, os monges e as irmãs da Fraternidade Monástica de Jerusalém instalaram-se e atualmente organizam celebrações todos os dias. Foi classificado como Património da Humanidade pela Unesco, em 1979.
    O Mont Saint Michel é tudo aquilo que vemos nas fotos e a vista é deslumbrante!
    O carro fica num dos muitos parques de estacionamento que custa 11,70 e que dista a cerca de 500 metros do local onde se apanham as "navettes", autocarros que nos levam pela estrada/ponte até ao monte. São cerca de 3 km. Também se pode ir a pé ou de charrete.
    Lá chegados, pode comprar-se o bilhete para visitar a abadia cá em baixo, no posto de turismo, ou então na abadia. Optámos por comprar no turismo e ainda bem, porque na abadia havia fila. Os menores de 25 anos não pagam, desde que estudem, apesar de não terem pedido cartão de estudante.
    Depois, começa-se a subir. As ruas lembraram-me Óbidos.
     
    Última edição: 5 Jun 2018
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  2. LigiaDC

    LigiaDC Moderador Membro do Staff

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    Mais algumas
    Cada vez mais próximos da abadia
    A abadia
    E a vista:
    No regresso, assim que entrámos na navette, caiu uma chuvada como apenas tinha visto nas Caraíbas. Só que fresca.
    E não parava de cair. Chegámos ao carro ensopados e a chuva continuava a cair. Dirigimo-nos então para Fougères, que dista 46 km do Mont.
    Fougères tem uma das fortalezas maiores do mundo e cheia de história, também. Era utilizada pelo Duque da Bretanha para defender as suas terras dos franceses.
    Só que a meteorologia não ajudou. Continuava a cair uma chuva contínua e forte. Estacionámos o carro perto da fortaleza e fomos a correr para uma esplanada com toldos para nos abrigarmos da chuva. Deu para beber uma cervejinha. Nada mais.
    Aqui ficam algumas fotos:
     
    Última edição: 5 Jun 2018
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  3. LigiaDC

    LigiaDC Moderador Membro do Staff

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    E foi tudo o que vimos de Fougères. Estávamos encharcados, continuava a chover copiosamente e decidimos regressar a Rennes.

    Sábado foi dia de ir a Saint Malo. De Rennes a Saint Malo são 70 km.
    Saint Malo deve o seu nome a um monge gaulês "Mac Low" que, no século VI, foi bispo de Alet, antigo berço da cidade moderna fundada na metade do século XII sobre um monte rochoso. Desde o século XIII, os "Malouins" (os habitantes de Saint-Malo) pirateavam os navios inimigos. Em 1308, eram independentes e, de 1395 até 1415, aliaram-se ao rei de França, Carlos VI, que lhes ofereceu portos francos. No final do século XV, Anne de Bretagne, com os seus sucessivos matrimónios com Carlos VIII e Luis XII, juntou-se ao ducado da Bretanha e ao Reino de França.
    Saint Malo foi sempre uma cidade rica pelos seus navegadores e pelos seus corsários. A história de Saint Malo é riquíssima e não posso contar aqui toda. Mas posso dizer que a cidade tem um élan que me fascinou. Passou por sucessivas destruições, pelo fogo e na II Grande Guerra e de novo reconstruída. Os Malouins recordam as gentes do Porto e dizem que, primeiro que tudo, são Malouins, depois, Bretões e, se sobrar alguma coisa, Franceses. O lema da cidade é "Semper fidelis".
    Catedral
    Câmara Municipal
    O porto
    A fortaleza
    Mais algumas
     
    Última edição: 5 Jun 2018
  4. LigiaDC

    LigiaDC Moderador Membro do Staff

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    Deixámos Saint Malo e fomos para Dinan, numa distância de 33 km, sempre por entre campos e campos verdes, cheios de vacas a pastar.
    A primeira referência a Dinan num texto remonta ao ano de 1040. Josselin, primeiro senhor e fundador da cidade, surge como testemunho de uma doação à abadia de Saint-Georges de Rennes. Josselin é o filho do visconde de Alet, a antiga Saint-Malo. Idealmente localizada nas margens do Rance, a cidade prospera rapidamente, beneficiando de uma dupla vantagem estratégica: ponto de rutura entre o Rance marítimo e o Rance fluvial, o porto de Dinan teve muito precocemente relações comerciais com a Inglaterra e a Flandres, bem como a sua velha ponte era a única passagem terrestre até ao estuário, fonte de portagens e, portanto, de lucros.
    Chega-se a Dinan por um moderno viaduto que vai dar direitinho àquilo que pensamos ser a cidade. No cimo de um monte. A cidade é encantadora e surpreendente, dado que desde por todo o monte até ao rio, sem qualquer aviso e sem nos apercebermos disso.
    Muito, muito bom.
    Catedral
    Ruas e ruelas
    A zona ribeirinha
     
  5. LigiaDC

    LigiaDC Moderador Membro do Staff

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    A espetacular vista das muralhas
    Depois deste dia tão bem passado, rumámos novamente a Rennes.

    Domingo, deixámos Rennes e fomos a Rochefort-en-Terre, ao longo de 82 km novamente por campos verdes e muitas, muitas vacas a pastar.
    Com uma série de construções de pedra, telhados inclinados e muitos canteiros de flores coloridas pelas ruas, Rochefort-en-Terre tem um cenário apaixonante que poderia estar nos livros de contos de fadas.
    Rochefort-en-Terre cresceu em torno de um castelo construído no século XII que, depois de ter passado por algumas batalhas, foi quase todo destruído. No Parque do Château de Rochefort-en-Terre, aberto ao público em 2013, encontra-se um novo castelo (este erguido na década de 1920), um belo jardim e o Museu Naia.
     
  6. LigiaDC

    LigiaDC Moderador Membro do Staff

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    Rochefort en Terre possui uma igreja com uma história curiosa. Diz a tradição popular que, no século X, aquando das invasões normandas, um padre escondeu num tronco oco uma estátua de madeira de Nossa Senhora para evitar as pilhagens. Dois séculos mais tarde, uma pastora terá encontrado esta Virgem no tal tronco, onde existe hoje a igreja. A história deu o nome à imagem e à igreja, "Notre-Dame de Tronchaye". O termo "Tronchaye" vem de tronco. Esta lenda explica a localização da igreja numa colina e não no centro da vila.
    Encontrei lá um Santo António de Pádua (Lisboa)
    Rochefort-En-Terre não tem muito mais para ver, pelo que rumámos ao nosso destino último, Nantes. São 96 km de estrada.
    Nantes foi a grande surpresa da viagem. É inesperadamente linda. Para nos facilitar a descoberta, existe uma risca verde no chão, com 8 km de extensão, que nos leva aos principais pontos turísticos da cidade. O Castelo dos Duques da Bretanha é um símbolo forte da história da Bretanha e do Estado bretão que existiu durante cerca de 1000 anos na Europa, sendo um dos mais poderosos da sua época. Os Duques, que tinham escolhido Nantes como capital, fizeram aqui uma verdadeira cidade na cidade, e o contraste entre o seu exterior fortificado, e o seu interior, de estilo Renascentista, é único. O castelo foi a última residência dos duques antes que a Bretanha fosse ligada à França. Ana da Bretanha aqui nasceu e viveu antes de se tornar duas vezes rainha de França.
    Iniciada em 1434, a construção da Catedral de Nantes durou quase 500 anos. Atualmente é a maior catedral da Bretanha e a sua altura ultrapassa a de Chartres ou de Notre Dame de Paris! E igualmente a única catedral da Bretanha a utilizar “tuffeau”, uma pedra do Loire, na sua construção, quando os outros edifícios deste tipo eram habitualmente em granito. A catedral abriga o túmulo do último duque da Bretanha e da sua mulher, o duque François II e Marguerite de Foix, cuja construção fora ordenada por Ana da Bretanha, sua filha. Este túmulo, construído em 1502, é uma obra-prima única.
    Rica pelas suas trocas comerciais com o resto do Mundo, Nantes transformou-se nos séculos XVIII e XIX. As grandes famílias de Nantes de armadores e comerciantes construíram vários hotéis particulares e moradias de estilo clássico ainda visíveis nos dias de hoje. As suas fachadas ricamente decoradas e os seus pátios interiores testemunham esta época onde se corriam riscos para enriquecer e trazer produtos novos, do mundo inteiro, tais como açúcar, bacalhau, especiarias, rum, cacau, tabaco, algodão, chá ou porcelana.
    Nantes tem uma arquitetura muito bonita e é uma cidade alegre, aberta e cuidada.
     
  7. LigiaDC

    LigiaDC Moderador Membro do Staff

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    Termino por aqui, que o report vai muuuuito longo!
    Boas viagens!
     
  8. rum

    rum Moderador Membro do Staff

    2.548
    1.682
    223
    Bom report.
     
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  9. Ricardo_7

    Ricardo_7 Membro Conhecido

    2.294
    1.857
    223
    Olá,

    Muito obrigado pela partilha :D É bom descobrir locais que não são tão falados/conhecidos :)
    Sem dúvida, uma escapadinha interessante ;)

    Boas viagens :)
     
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  10. Paulo Leite

    Paulo Leite Coordenador Membro do Staff

    4.967
    4.468
    273
    Olá @LigiaDC ,

    É sempre bom conhecer destinos que são (para mim) completamente desconhecidos, as fotos ilustram bem o destino e são atraentes :)

    Obrigado pela partilha...
     
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  11. Bee

    Bee Moderador Membro do Staff

    2.644
    1.055
    223
    O meu interesse nesta zona de França tem aos poucos aumentado. Parece excelente para uma escapadinha.
    Obrigada pela excelente partilha.
     
  12. Cristina Sousa

    Cristina Sousa Membro Conhecido

    5.240
    7.622
    323
    Obrigada pela partilha.
    Gosto muito deste tipo de escapadinhas e estes locais vão para a minha lista! :)
     
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  13. d3ci0

    d3ci0 Membro Conhecido

    456
    335
    103
    Muito obrigado pela partilha!!!
    É uma excelente escolha para uma escapadinha!! Muito giro, belas fotos.:)
     
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  14. PauloNev

    PauloNev Moderador Sénior Membro do Staff

    3.898
    3.276
    273
    Muito obrigado pela partilha.
    Belas fotos de locais pouco falados por aqui.
    Boas viagens ;)
     
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  15. rmonteiro

    rmonteiro Membro Conhecido

    2.012
    1.128
    223
    Muito muito interessante !! Locais cheios de história !
    Obrigado pela partilha ! ;)
     
    Editado por um moderador: 12 Jun 2018
  16. Antonia.M.S.

    Antonia.M.S. Membro Conhecido

    479
    1.142
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    Olá @LigiaDC! Como admiro a nossa Europa e a sua diversidade. De paisagens de cultura, de história, de património, de clima, de perfumes...enfim há tanto por explorar, e este report é um belo exemplo do muito que há para ver e apreciar.
    Obrigada pela partilha, são lugares encantadores, que espero vir a visitar!
    Parabéns pelo belo report!:D
     
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